O que a Conab divulgou
A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) publicou em 13 de agosto de 2026, às 9h16, os resultados do 11º Levantamento da Safra de Grãos 2025/26. A produção nacional está estimada em 360,8 milhões de toneladas, alta de 2,4% sobre o ciclo 2024/25, o equivalente a 8,5 milhões de toneladas a mais.
O crescimento vem sobretudo de área, não de rendimento. A área cultivada está estimada em 83,5 milhões de hectares, expansão de 2,1%, enquanto a produtividade média nacional ficou em 4.322 quilos por hectare, desempenho próximo ao do ciclo anterior. Em outras palavras: o Brasil está colhendo mais porque plantou em mais lugares, e não porque cada hectare rendeu significativamente mais.
Os números por cultura, conforme o levantamento:
- Soja: 180,5 milhões de toneladas, com destaque para o Mato Grosso, estimado em 51,6 milhões de toneladas.
- Milho: 143 milhões de toneladas no total, sendo 29,5 milhões na primeira safra (com a colheita finalizada), 111 milhões na segunda safra e 2,4 milhões na terceira safra.
- Arroz: 11,1 milhões de toneladas, com redução de 14% na área plantada.
- Feijão: 3 milhões de toneladas, queda de 3,2%, distribuídas entre 973,9 mil toneladas na primeira safra, 1,3 milhão na segunda e 681 mil toneladas na terceira.
- Trigo: 5,8 milhões de toneladas, retração de 26,2%, puxada por uma redução de 20,4% na área cultivada.
- Algodão: 5,8 milhões de toneladas em caroço e 4,1 milhões de toneladas de pluma, com a colheita em 43,7% no momento do levantamento.
No balanço de oferta e demanda, a Conab elevou o consumo interno de milho em 152,2 mil toneladas, para 95 milhões de toneladas, e projetou estoque de passagem de 15,58 milhões de toneladas.
O que o IBGE divulgou no mesmo dia
Também em 13 de agosto de 2026, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou o Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA) com mês de referência julho. A projeção para a produção brasileira de cereais, leguminosas e oleaginosas em 2026 é de 353,0 milhões de toneladas, crescimento de 2,0% sobre as 346,1 milhões de toneladas de 2025, ou 6,9 milhões de toneladas a mais.
Em relação à própria estimativa de junho, o instituto acrescentou 5,6 milhões de toneladas, alta de 1,6%. A área a ser colhida foi estimada em 83,1 milhões de hectares, aumento de 1,8% frente a 2025, com expansão de 1,5 milhão de hectares. Arroz, milho e soja concentram 92,9% da estimativa de produção e 87,4% da área a ser colhida.
Entre as culturas, o IBGE projetou soja em 174,9 milhões de toneladas, milho de primeira safra em 29,9 milhões, milho de segunda safra em 111,9 milhões, arroz em 11,2 milhões, trigo em 6,4 milhões e algodão herbáceo em 9,2 milhões de toneladas.
Por que os dois números não se contradizem
É tentador ler 360,8 contra 353,0 como divergência entre órgãos públicos. Não é o que está acontecendo. Há pelo menos duas diferenças estruturais, visíveis nas próprias publicações:
- Período de referência. A Conab organiza seus levantamentos pelo ciclo agrícola: a safra 2025/26 começa com o plantio no segundo semestre de 2025 e se estende pelas safras subsequentes de 2026. O LSPA do IBGE organiza pelo ano civil: o que se colhe dentro de 2026. Lavouras que atravessam a virada do ano caem em recortes distintos. Basta esse ponto para que os dois totais nunca sejam diretamente comparáveis.
- Cesta de produtos e forma de contagem. Os levantamentos não somam exatamente os mesmos itens, nem da mesma maneira. O caso mais visível é o algodão: a Conab publica caroço e pluma separadamente (5,8 e 4,1 milhões de toneladas), enquanto o IBGE reporta algodão herbáceo em um único número (9,2 milhões de toneladas). Somar linha a linha sem conferir a definição de cada uma produz comparação errada.
Vale notar o que os dois levantamentos concordam, que é mais informativo do que a diferença dos totais: área em expansão perto de 83 milhões de hectares, crescimento de produção na casa de 2%, soja em alta e trigo e arroz em queda. A direção do movimento é a mesma nas duas leituras.
Onde entra o satélite nessa conta
Estimativa de safra não é contagem, é inferência sobre território, e por isso depende de geotecnologia. No caso da Conab, isso está descrito nos próprios serviços institucionais do órgão. O Boletim de Monitoramento Agrícola reúne informações sobre condições agrometeorológicas e inclui o monitoramento espectral de cultivos de verão e inverno, acompanhando culturas como algodão, arroz, feijão, milho, soja, sorgo e trigo. Já os mapeamentos agrícolas, mantidos pela Gerência de Geotecnologia da companhia, disponibilizam o mapeamento das principais lavouras acompanhadas, incluindo algodão, arroz irrigado, café, cana-de-açúcar e as culturas de verão e inverno.
Na prática, é a combinação de três camadas que sustenta um número como 83,5 milhões de hectares: imagem de satélite para delimitar e classificar o que está plantado, modelo agrometeorológico para estimar rendimento diante das condições do ciclo, e levantamento de campo para calibrar e validar. Nenhuma das três, sozinha, produz uma estimativa confiável em escala nacional. É a mesma lógica que descrevemos no guia sobre sensoriamento remoto no agronegócio.
Esse desenho também explica por que as estimativas mudam a cada mês e por que isso é sinal de saúde, não de erro. A cada levantamento entram novas passagens de satélite, novo histórico de chuva e temperatura e novos dados de campo. O 11º Levantamento é a décima primeira revisão da mesma safra, e a próxima virá com a colheita mais avançada.
Por que isso importa para quem trabalha com dados geográficos
Três desdobramentos práticos, para além do interesse setorial:
- Dado oficial com recorte territorial é insumo, não notícia. Os dois levantamentos publicam tabelas por unidade da federação e, no caso dos mapeamentos da Conab, camadas geográficas. Transformar isso em informação utilizável exige o trabalho de sempre: normalizar códigos de município, casar séries com competência declarada e registrar a versão usada. É exatamente a disciplina que a Felikis aplica ao estruturar fontes públicas em dados territoriais rastreáveis, com fonte, competência e cobertura explícitas.
- Metadado evita conclusão errada. A confusão entre 360,8 e 353,0 é um exemplo pequeno de um problema grande em integração de dados públicos: duas bases corretas, recortes diferentes, e nenhum aviso na planilha. Quando a origem, a data de referência e a definição do campo viajam junto com o dado, esse tipo de erro não acontece. É o mesmo princípio de interoperabilidade que discutimos em padrões OGC na prática.
- Área plantada em expansão é demanda por cadastro. Um acréscimo anual na casa de 1,5 a 1,7 milhão de hectares, como aparecem nos dois levantamentos, significa novas glebas, novos acessos, nova logística e nova infraestrutura a mapear. Quem opera em campo sente isso antes da estatística consolidar, e é aí que geoprocessamento deixa de ser análise e vira base cadastral de trabalho.
Separando fato de expectativa: os valores acima são estimativas, não produção apurada. A colheita do milho de segunda safra e do algodão ainda estava em curso no momento dos levantamentos, e o trigo, cultura de inverno, tem seu desfecho no segundo semestre. Números finais só existem depois que a safra termina e passa pelas apurações posteriores.
Próximos passos
A Conab divulga levantamentos mensais da safra de grãos, e o IBGE publica o LSPA também em base mensal. As próximas edições, previstas para setembro de 2026, devem incorporar o avanço da colheita da segunda safra de milho e do algodão, além do desenvolvimento do trigo, a cultura com a maior queda percentual nas duas leituras. Esta notícia está em acompanhamento e será atualizada se houver revisão relevante.
Fontes e referências
- Estimativa aponta para uma produção de 360,8 milhões de toneladas na safra 2025/26 - Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Empresa pública federal vinculada ao Ministério da Agricultura e Pecuária · Brasil · português · publicado em 13 de agosto de 2026, às 9h16 · consultado em 19 ago 2026. Sustenta: produção estimada de 360,8 milhões de toneladas na safra 2025/26, alta de 2,4% e acréscimo de 8,5 milhões de toneladas sobre 2024/25, área de 83,5 milhões de hectares com expansão de 2,1%, produtividade média de 4.322 kg/ha, soja em 180,5 milhões de toneladas com Mato Grosso em 51,6 milhões, milho em 143 milhões de toneladas (29,5 na primeira safra com colheita finalizada, 111 na segunda e 2,4 na terceira), arroz em 11,1 milhões com redução de 14% na área plantada, feijão em 3 milhões com queda de 3,2% e as três safras detalhadas, trigo em 5,8 milhões com retração de 26,2% e área 20,4% menor, algodão em 5,8 milhões de toneladas em caroço e 4,1 milhões de pluma com colheita em 43,7%, consumo interno de milho de 95 milhões de toneladas e estoque de passagem de 15,58 milhões de toneladas. gov.br/conab
- 11º Levantamento - Safra 2025/26 (Boletim da Safra de Grãos) - Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Página oficial do boletim, com e-book, apresentação e planilha de previsão de safra · Brasil · português · publicado em 13 de agosto de 2026, às 9h · consultado em 19 ago 2026. Sustenta: existência e data do 11º Levantamento da Safra de Grãos 2025/26, a natureza mensal da série de levantamentos e a disponibilidade pública do boletim completo e das tabelas de produção e de balanço de oferta e demanda. gov.br/conab (boletim)
- Em julho, IBGE prevê safra de 353,0 milhões de toneladas para 2026 - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Release oficial do Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA), mês de referência julho · Brasil · português · divulgado em 13 de agosto de 2026 · consultado em 19 ago 2026. Sustenta: a estimativa de 353,0 milhões de toneladas de cereais, leguminosas e oleaginosas para o ano de 2026 e o mês de referência do levantamento. agenciadenoticias.ibge.gov.br
- Produção de grãos no Brasil deve atingir 353 milhões de toneladas em 2026, diz IBGE - BPMoney. Veículo jornalístico especializado em economia e agronegócio · Brasil · português · publicado em 13 de agosto de 2026 · consultado em 19 ago 2026. Sustenta (fonte secundária, usada apenas para o detalhamento do LSPA): variação de 2,0% sobre as 346,1 milhões de toneladas de 2025 com acréscimo de 6,9 milhões, alta de 1,6% e 5,6 milhões de toneladas sobre a estimativa de junho, área a colher de 83,1 milhões de hectares com aumento de 1,8% e expansão de 1,5 milhão de hectares, e as projeções de soja (174,9 milhões de toneladas), milho de primeira safra (29,9 milhões), milho de segunda safra (111,9 milhões), arroz (11,2 milhões), trigo (6,4 milhões) e algodão herbáceo (9,2 milhões). bpmoney.com.br
- Safra 2026 de grãos é estimada em 353 milhões de toneladas pelo IBGE - Canal Rural. Veículo jornalístico especializado em agronegócio · Brasil · português · publicado em 13 de agosto de 2026 · consultado em 19 ago 2026. Sustenta (segunda fonte independente para o mesmo detalhamento): data da divulgação do LSPA em 13 de agosto de 2026, o total de 353,0 milhões de toneladas com alta de 2,0% e acréscimo de 6,9 milhões, a área a colher de 83,1 milhões de hectares e a participação de arroz, milho e soja em 92,9% da produção estimada e 87,4% da área. canalrural.com.br
- Obter informações sobre monitoramento agrícola - ficha de serviço da Conab no portal Gov.br. Catálogo oficial de serviços públicos federais · Brasil · português · consultado em 19 ago 2026. Sustenta: o Boletim de Monitoramento Agrícola reúne informações sobre condições agrometeorológicas e inclui o monitoramento espectral de cultivos de verão e inverno, com acompanhamento constante das principais culturas do país, entre elas algodão, arroz, feijão, milho, soja, sorgo e trigo. gov.br (serviços)
- Obter informações sobre mapeamento das áreas agrícolas - ficha de serviço da Conab no portal Gov.br. Catálogo oficial de serviços públicos federais · Brasil · português · consultado em 19 ago 2026. Sustenta: a disponibilização pública do mapeamento das principais lavouras acompanhadas pela Conab, incluindo algodão, arroz irrigado, café, cana-de-açúcar e culturas de verão e inverno, e a atribuição do serviço à Gerência de Geotecnologia (GEOTE) da companhia. gov.br (serviços)