O que a ANP divulgou

A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) publicou em 1º de setembro de 2026 os dados consolidados do Boletim Mensal da Produção referentes a julho de 2026. Os números centrais:

  • Total: 5,851 milhões de barris de óleo equivalente por dia (boe/d), somando petróleo e gás natural.
  • Petróleo: 4,498 milhões de barris por dia (bbl/d), alta de 0,5% sobre junho e de 13,6% sobre julho de 2025.
  • Gás natural: 214,97 milhões de metros cúbicos por dia (m³/d), queda de 1,1% sobre junho e alta de 12,6% em doze meses.
  • Pré-sal: 4,821 milhões de boe/d, ou 82,4% do total nacional, com alta de 0,3% no mês e de 18,2% sobre julho de 2025.

A produção teve origem em 6.724 poços, sendo 613 marítimos e 6.111 terrestres. Os campos marítimos responderam por 98,1% do petróleo e 88,7% do gás natural. Campos operados pela Petrobras, sozinha ou em consórcio, somaram 87,27% do total produzido. Búzios, na Bacia de Santos, foi o campo com maior produção de petróleo, com 1.113 mil bbl/d. Mero, também em Santos, liderou em gás natural, com 49,14 milhões de m³/d. Entre as instalações, a maior produtora de petróleo foi a FPSO Almirante Tamandaré, com 263.178 bbl/d, e a maior de gás foi a FPSO Marechal Duque de Caxias, com 13,60 milhões de m³/d.

Uma distinção que vale registrar: o comunicado da ANP apresenta os números sem qualificá-los como recorde. Veículos que cobriram a divulgação, entre eles o Poder360, descreveram julho como o segundo mês consecutivo de recorde na produção de petróleo. Mantemos as duas leituras separadas, porque a primeira é o dado oficial e a segunda é a interpretação da série feita por terceiros.

203 poços, 82,4% da produção

O detalhe mais revelador do boletim está no recorte do pré-sal: os 4,821 milhões de boe/d vieram de 3,728 milhões de bbl/d de petróleo e 173,72 milhões de m³/d de gás natural, produzidos por 203 poços. Confrontando esse número com os 6.724 poços produtores do país, chega-se a uma proporção que ajuda a entender o setor: cerca de 3% dos poços respondem por mais de quatro quintos do volume nacional. O cálculo é nosso, feito sobre dois valores publicados no mesmo comunicado.

Isso tem consequências práticas para qualquer trabalho de análise territorial sobre o setor. Uma contagem de poços não é proxy de produção, e um mapa de pontos sem atributo de vazão descreve muito mal o que está acontecendo. A informação útil está no polígono do campo, no dado do poço e na instalação que o opera, com o volume associado a cada um.

Densidade não é volume Um mapa com 6.724 pontos de poços produtores sugere um país difuso. O dado de produção mostra o contrário: a maior parte do volume sai de um punhado de campos marítimos concentrados na Bacia de Santos. Sem o atributo quantitativo ligado à geometria, o mapa induz exatamente à conclusão errada.

Gás produzido não é gás no mercado

Há um segundo ponto no boletim que costuma passar batido e que importa para quem acompanha a cadeia de gás natural. Dos 214,97 milhões de m³/d produzidos em julho, foram disponibilizados ao mercado 66,12 milhões de m³/d. O aproveitamento de gás natural foi de 97,8% e a queima ficou em 4,67 milhões de m³/d, com redução de 29,5% em relação a junho e de 14,8% na comparação com julho de 2025.

Os dois números não se contradizem, mas medem coisas diferentes. Aproveitamento, na contabilidade da ANP, é a parcela do gás produzido que não foi queimada em maçarico nem perdida. O gás aproveitado inclui a reinjeção nos reservatórios, o consumo nas próprias unidades de produção e a movimentação para absorção, além do volume efetivamente entregue ao mercado. Por isso a distância entre os 214,97 milhões de m³/d produzidos e os 66,12 milhões de m³/d que chegaram ao mercado não é desperdício: é destino diferente.

Essa diferença entre produzir e entregar é justamente o que liga a estatística de produção à infraestrutura de escoamento, tema que já cobrimos ao tratar das projeções do PDE 2035 para o gás natural e do balanço da rede de distribuição em 2025. Oferta na plataforma e gás no city gate são pontos distintos de uma mesma malha, e a distância entre eles é, antes de tudo, um problema geográfico.

Onde entra o dado geográfico

Todo esse boletim é, na origem, informação georreferenciada. A ANP disponibiliza o Boletim Mensal da Produção em PDF, em painel dinâmico de business intelligence e em arquivos abertos, com detalhamento por poço e por zona produtora, incluindo os volumes de cada fluido produzido. Na mesma página, a agência lista conjuntos de dados abertos, entre eles os dados georreferenciados das bacias sedimentares brasileiras.

A camada espacial correspondente fica no GeoMapsANP, plataforma WebGIS publicada pela agência em 10 de novembro de 2020 e atualizada pela última vez, segundo a própria página oficial, em 22 de dezembro de 2023. Ela reúne bacias sedimentares, poços perfurados, levantamentos sísmicos e blocos exploratórios contratados, com os metadados associados.

Para quem trabalha com dados territoriais, o exercício é conhecido: a estatística mensal vive em uma base tabular, a geometria vive em outra, e o valor aparece quando as duas se juntam com chave, competência e origem declaradas. Cruzar produção por campo com o polígono do campo, com o traçado de gasodutos, com o município e com a área de concessão é trabalho de geoprocessamento comum, e é o que transforma um boletim mensal em série histórica territorial. É o mesmo tipo de organização que aplicamos ao estruturar fontes públicas em dados territoriais rastreáveis, com competência e cobertura explícitas, e que sustenta a leitura de rede descrita no guia sobre GIS para concessionárias e utilities.

Separando o que está confirmado do que não está: os volumes de julho de 2026 são dado consolidado e publicado. O comportamento de agosto ainda não existe como estatística oficial, e projeções de fechamento de ano feitas por analistas de mercado não são número da agência.

O que vem a seguir

O próximo boletim da ANP, com os dados de agosto de 2026, é a referência seguinte para acompanhar a série. No calendário do setor, a agência também já anunciou, em 6 de agosto de 2026, que o 6º Ciclo da Oferta Permanente de Concessão terá 22 setores exploratórios mais duas áreas com acumulações marginais, e que o 4º Ciclo da Oferta Permanente de Partilha de Produção ofertará 13 blocos, o maior número desde o início do modelo. As sessões públicas dos dois ciclos estão marcadas para 7 de outubro de 2026. São áreas com geometria definida, o que significa novas camadas para atualizar em quem mantém base própria de blocos e campos.

Nota editorial. Produzida com apoio de automação e verificada em fonte oficial, conforme a política editorial desta seção. Todos os volumes, percentuais, contagens de poços, nomes de campos e de instalações reproduzidos aqui constam do comunicado da ANP publicado em 1º de setembro de 2026, sem arredondamento ou estimativa nossa. A proporção entre os 203 poços de pré-sal e os 6.724 poços produtores é cálculo da redação sobre dois valores desse mesmo comunicado, e está identificada como tal no texto. O enquadramento de "segundo recorde consecutivo" não consta do comunicado oficial e é atribuído no texto ao veículo que o publicou. A explicação sobre o que compõe o aproveitamento de gás e a leitura sobre uso da informação como camada geográfica são análise da redação, não declaração da ANP.

Fontes e referências

  1. ANP divulga dados consolidados da produção de petróleo e gás em julho de 2026 - Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Agência reguladora federal · Brasil · português · publicado em 1º de setembro de 2026 · consultado em 2 set 2026. Sustenta: o total de 5,851 milhões de boe/d; 4,498 milhões de bbl/d de petróleo com alta de 0,5% no mês e 13,6% em doze meses; 214,97 milhões de m³/d de gás natural com queda de 1,1% no mês e alta de 12,6% em doze meses; pré-sal com 4,821 milhões de boe/d, 82,4% do total, alta de 0,3% e de 18,2%, com 3,728 milhões de bbl/d e 173,72 milhões de m³/d produzidos por 203 poços; 6.724 poços produtores (613 marítimos e 6.111 terrestres); campos marítimos com 98,1% do petróleo e 88,7% do gás; 87,27% do total em campos operados pela Petrobras; Búzios com 1.113 mil bbl/d; Mero com 49,14 milhões de m³/d; FPSO Almirante Tamandaré com 263.178 bbl/d; FPSO Marechal Duque de Caxias com 13,60 milhões de m³/d; aproveitamento de gás de 97,8%; 66,12 milhões de m³/d disponibilizados ao mercado; e queima de 4,67 milhões de m³/d, com quedas de 29,5% e 14,8%. gov.br/anp
  2. Boletim Mensal da Produção (BMP) - Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Página institucional da publicação estatística mensal · Brasil · português · consultado em 2 set 2026. Sustenta: a existência do boletim em PDF, painel dinâmico em formato de business intelligence, planilhas e arquivos abertos; o detalhamento dos volumes por poço e por zona produtora, com discriminação dos fluidos produzidos; e a listagem dos dados georreferenciados das bacias sedimentares brasileiras entre os conjuntos de dados abertos. gov.br/anp - BMP
  3. GeoMapsANP - Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Plataforma WebGIS oficial de dados de exploração e produção · Brasil · português · página publicada em 10 de novembro de 2020 e atualizada em 22 de dezembro de 2023 · consultada em 2 set 2026. Sustenta: a existência da plataforma interativa e o conjunto de camadas disponibilizadas, com bacias sedimentares, poços perfurados, levantamentos sísmicos e blocos exploratórios contratados, além dos metadados associados. gov.br/anp - GeoMapsANP
  4. Oferta Permanente: 6º Ciclo de Concessão terá 22 setores e 4º Ciclo de Partilha ofertará 13 blocos - Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Agência reguladora federal · Brasil · português · publicado em 6 de agosto de 2026 · consultado em 2 set 2026. Sustenta: os 22 setores exploratórios e duas áreas com acumulações marginais do 6º Ciclo de Concessão, os 13 blocos do 4º Ciclo de Partilha de Produção como o maior número desde o início da Oferta Permanente, e a data de 7 de outubro de 2026 para as sessões públicas. gov.br/anp - Oferta Permanente
  5. Produção de petróleo sobe 13% e bate 2º recorde seguido - Poder360. Veículo jornalístico · Brasil · português · publicado em 1º de setembro de 2026 · consultado em 2 set 2026. Sustenta (usada apenas para o enquadramento ausente do comunicado oficial): a caracterização de julho de 2026 como segundo mês consecutivo de recorde na produção de petróleo. Os volumes reproduzidos por essa fonte coincidem com os do comunicado da ANP. poder360.com.br